PF investiga em Fundão contrabando de migrantes para os Estados Unidos

Policiais federais cumpriram, na manhã desta sexta-feira (24), mandado de busca e apreensão em uma casa no município de Fundão, em uma operação que investiga o contrabando de migrantes para os Estados Unidos.

De acordo com a Polícia Federal, a ação contou com a participação de 10 policiais e teve como objetivo, além do cumprimento da ordem judicial, a obtenção de novos elementos de prova para a conclusão das investigações.

Ainda segundo a PF, estão sendo investigadas duas pessoas pelo envolvimento na promoção de migração ilegal para os Estados Unidos. Uma delas, inclusive, já foi indiciada e presa pelo mesmo crime em investigações realizadas pelo Grupo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes da Polícia Federal de Minas Gerais.

Na casa em Fundão a PF encontrou 10 pessoas, entre elas sete adultos e três crianças. Também foram encontrados no local documentos e passagens aéreas.

Quando a polícia perguntou sobre as passagens e o nome de cada pessoa, um dos moradores se atrapalhou ao falar de uma suposta filha.

De acordo com o delegado Guilherme Helmer, fingir que são todos da mesma família pode facilitar a entrada nos Estados Unidos e dificultar o processo de deportação.

“A legislação americana ela estabelece que quando uma família chega a partir de uma migração ilegal ela não deve ser desfeita e isso facilita a permanência dos imigrantes nos Estados Unidos”, explicou.
O grupo é todo de Minas Gerais e acabou confirmando à PF as suspeitas de migração ilegal.

As pessoas ficavam na casa em condições precárias e dormindo em barracas enquanto os dois investigados preparavam a documentação para a entrada em território americano por meio da fronteira com o México.

De acordo com a Polícia Federal, a casa era usada há dois meses e o grupo estava há quase 20 dias aguardando a liberação para a viagem.

“É uma viagem extremamente perigosa que envolve a permanência em residências em condições precárias na fronteira com o México e muitas vezes dominadas pelos cartéis mexicanos, uma realidade muito diferente do que é passado”, disse o delegado Igor Roberto Costa e Silva.

“Coyotes”

“Coyote” é como chamam quem promove a entrada ilegal nos Estados Unidos. De acordo com a PF, os investigados cobravam até R$ 30 mil por pessoa pelo serviço. Parte do pagamento é feito antes da viagem e outra parte depois que chegam aos Estados Unidos.

De janeiro a julho deste ano foram presas mais de 30 mil pessoas tentando atravessar ilegalmente a fronteira, quase 2 vezes mais que em todo o ano de 2019.

“Mesmo depois que elas chegam ao território americano, elas permanecem reféns dos coyotes porque precisam quitar a dívida. Aí são submetidos a toda forma de trabalho para que esses valores sejam pagos e aí sim possam seguir seu caminho”, contou o delegado.

A maioria das pessoas é de Minas Gerais, Rondônia e Espírito Santo. De acordo com o superintendente da PF no estado, Eugênio Ricas, o Espírito Santo atualmente disputa o segundo lugar em número de pessoas apreendidas pela autoridades americanas tentando entrar nos Estados Unidos de forma ilegal.

“Tem muita gente que acredita que pode ter uma vida melhor mas o que encontra é morte e sofrimento e são reféns desses coyotes pois chegam aos Estados Unidos com uma dívida alta. É um drama porque muitas pessoas acabam morrendo pelo caminho”, finalizou.

Todas as pessoas que estavam na casa seguiram para a Superintendência da PF, onde foram ouvidas e liberadas. Ninguém foi preso, mas a PF segue com as investigações.

Migração ilegal

De acordo com a PF, o número de brasileiros tentando ingressar ilegalmente nos Estados Unidos disparou neste ano. Estima-se que 150 brasileiros sejam detidos diariamente pelas agências policiais americanas, chegando a quase 5.000 por mês.

Não há dados que indiquem quantos brasileiros conseguem realizar a travessia organizada por grupos criminosos conhecidos por “coyotes”.

De acordo com a polícia, no ano fiscal norte-americano de 2018, foram documentadas 1.589 apreensões de brasileiros que ingressaram ilegalmente no país. No ano fiscal de 2019, esse número saltou para 17.890 apreensões.

Ainda segundo a PF, em relação ao ano fiscal de 2020, em razão da pandemia da Covid-19, o número de apreensões de brasileiros diminui, totalizando 7.014 casos. Com a flexibilização das restrições, no ano fiscal de 2021, ainda em curso, foi registrado o recorde de apreensões de brasileiros, 30.508 casos até julho de 2021.

A Polícia Federal alertou que, apesar da mudança no governo americano com a eleição do presidente Joe Biden, as regras migratórias americanas não foram flexibilizadas, a travessia ilegal pela fronteira mexicana, além de cara, é perigosa e traz riscos inúmeros às pessoas.

Além disso, segundo a PF, “as organizações criminosas dedicadas a esta atividade não têm nada a perder”. Há inúmeros relatos de agressão, estupros, furtos e até mesmo abandono dessas pessoas no deserto americano pelos “coyotes”.

No começo deste mês, o corpo de uma brasileira de 49 anos foi encontrado durante uma patrulha de agentes norte-americanos em uma área desértica no Novo México, nos Estados Unidos.

Fonte: G1