Petrobras investe na exploração do pré-sal no ES, mas deve vender gasoduto

A fim de concentrar suas atividades nos campos de petróleo de maior porte e produtividade, principalmente na área de pré-sal, a Petrobras está intensificando seus planos de desinvestimento, e pode colocar à venda gasodutos de transporte da companhia, inclusive as estruturas que passam pelo Espírito Santo.

Em plano de investimentos, divulgado há uma semana, a empresa manteve para 2024 a chegada do novo navio plataforma no Parque das Baleias, Litoral Sul, na Bacia de Campos. Além de garantir esse investimento, de aproximadamente R$ 5 bilhões, a estatal prevê aplicações com as atividades de exploração, tarefa necessária para ampliar a produção de óleo e gás no Estado, que está em queda.

No portifólio, também estão mantidas as Unidades de Tratamento de Gás, são duas no Estado: uma em Linhares, Cacimbas; e outra em Anchieta, a Sul Capixaba. Apesar de afirmar que vai manter ativos na Bacia do Espírito Santo, que pega o Litoral Norte do Estado, a empresa deixa claro que venderá áreas com menos volume de óleo e gás. O foco dos desinvestimentos estão em ativos de terra e águas rasas.

Em nota, a Petrobras informou que seus ativos são constantemente avaliados a partir do monitoramento de variáveis externas, preço, câmbio, ambiente regulatório, e de premissas financeiras e operacionais internas.

“Dado o passado recente de volatilidade do Brent, temos buscado maior resiliência a preços baixos e a redução do endividamento da companhia, ainda elevado. Para tal, são priorizados os ativos e projetos nos quais há maior vantagem competitiva, sobretudo os campos em águas profundas e ultra profundas.”

Diante disto, a companhia informou que permanece com sua atuação na Bacia do Espírito Santo, bem como mantém a sua estrutura para escoamento de óleo e gás do mar.

Vale destacar, por exemplo, que, em setembro, a empresa concluiu a venda de três campos terrestres do Polo Lagoa Parda, em Linhares, Norte do Estado, para a capixaba Imetame Energia.

Além disso, a Petrobras oficializou, em agosto, a venda de sua participação em 27 concessões terrestres de exploração e produção de petróleo, localizadas no Espírito Santo, conhecidas como Polo Cricaré, para a Karavan SPE Cricaré S.A., uma Sociedade de Propósito Específico (SPE).

Também em agosto, a estatal colocou à venda o total de suas participações no conjunto de concessões do Polo Norte Capixaba, localizado no Norte do Espírito Santo. Entre os ativos estão: cinco campos terrestres com instalações integradas, estações de tratamento de óleo, gasodutos, oleodutos, o Terminal Norte Capixaba (TNC) e a Estação Fazenda Alegre.

Apesar de não ter se manifestado sobre como isso afeta o Estado, a meta da companhia é chegar a 2025 sem qualquer participação em gasodutos de transporte, de acordo com seu plano de negócios. As estruturas são usadas para levar o gás da unidade de tratamento para as distribuidoras. Hoje, toda essa malha está em poder da empresa, o que deve mudar com a abertura do novo mercado de gás.

Segundo informações contidas no site da Petrobras, a estatal tem cinco gasodutos no Estado, sendo alguns responsáveis por transferências, e outros pelo transporte de gás natural.

Na área de transporte, o principal, segundo o especialista da área de petróleo e gás, Eduardo de Almeida Ramos, é o Cacimbas-Catu (Gascac), que percorre 954 km entre a Unidade de Processamento de Gás de Cacimbas (UTGC), em Linhares, e a Estação de Distribuição de Gas (EDG) de Catu, na Bahia. O outro é o Gascav, que liga Cabiúnas (RJ) a Vitória, com um braço que liga a Capital à Serra.

“O foco tende a ser a área terrestre, e esse é o que se destaca. E, pessoalmente, acredito a Petrobras se desfazer desses dutos, dependendo de quem comprar, pode ser uma boa. Empresas vao poder comprar o gás importado, jogar na malha, e viabilizar uma série de investimentos.”

Os outros gasodutos da Petrobras no Estado são o Lagoa Parda-Vitória, com um braço que liga a Capital a Aracruz; o gasoduto Gasviert, entre Vitória e Vianna; o gasoduto Cacimbas-Vitória, que liga a Estação do Terminal Intermodal da Serra (TIMS), até a Unidade de Processamento de Gás de Cacimbas (UTGC), em Linhares. Esses atuam como distribuição ou transferência.

O portfólio de desinvestimentos da companhia contempla ainda a venda de dezenas de outros ativos em diferentes estágios do processo de venda no país, e no Estado. Além dos dutos de transporte, a estatal também planeja vender ativos em terra e águas rasas, e acabar com a participação em térmicas, entre outros.

A meta é arrecadar entre US$ 25 bilhões e US$ 35 bilhões com as vendas entre 2021 e 2025, conforme o plano de negócios divulgado no início desta semana pela companhia.

Na cartela de ativos com venda prevista, estão oito das treze refinarias que fazem parte do portfólio da petroleira atualmente. Somente cinco delas, distribuídas entre os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, serão mantidas até 2025.

A estatal também pretende reduzir para dez o número de usinas termelétricas próprias no período. Hoje, são dezessete unidades próprias e treze participações.

A companhia planeja também manter apenas dez de seus 23 terminais aquaviários até o fim do período. O número de terminais em terra será reduzido para 15. Atualmente, são 21. Já o número de dutos será reduzido quase pela metade, passando de 173 para 88. Além de seis dutos no Centro-Oeste, 82 dos 84 dutos da região Sudeste serão preservados.

A Petrobras pretende ainda desativar 18 plataformas em todo o Brasil até 2025, dentre elas, a FPSO Capixaba e três plataformas fixas, situadas no campo de Cação (PCA-1, PCA-2 e PCA-3), na Bacia do Espírito Santo, no litoral de São Mateus. Somados, os descomissionamentos terão um custo estimado em US$ 4,6 bilhões. A empresa, entretanto, não esclareceu que parcela desse montante será aplicada em território capixaba.

Descomissionamento e Nova Plataforma

A FPSO Capixaba, que é uma plataforma antiga, está prevista para ser desativada com o início da operação do Integrado Parque das Baleias, novo navio-plataforma que iria ampliar a produção em Novo Jubarte, no Litoral Sul do Espírito Santo.

O investimento, entretanto, só deve sair do papel em 2024. A previsão anterior era de que o primeiro óleo fosse retirado já em 2023, mas a pandemia levou a uma mudança no cronograma.

O empreendimento, que deve produzir 150 mil barris de óleo, segundo as projeções mais recentes da Petrobras, e 5 milhões de metros cúbicos de gás, quando estiver em fase de instalação e de operação, terá papel fundamental para abrir oportunidades para a cadeia de fornecedores do Estado.

Oportunidades para outras Empresas

Na visão de especialistas, a concentração das atividades da Petrobras em áreas profundas e ultraprofundas acaba se transformando em oportunidade para que empresas menores invistam em projetos “descartados” pela estatal, aumentando a produtividade dos ativos.

“Desde o início da gestão atual, a Petrobras vem anunciando que pretende focar em ativos com rentabilidade para os acionistas. A tendência é que foque em áreas com maior produtividade no pré-sal, principalmente no Rio de Janeiro, e em São Paulo. No Espírito Santo, tem havido um movimento constante de venda de ativos, mas isso não é necessariamente algo ruim”, observou o especialista da área de energia e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), Adriano Pires.

“As empresas que vão comprar esses ativos, principalmente onshore, vão investir o que a Petrobras não está investindo há um tempo, nem vai investir mais. E isso vale para o Espírito Santo, mas também é uma tendência geral no país, onde a expectativa é que tenhamos um número maior de players no setor de óleo e gás no futuro”

A visão é compartilhada pelo especialista da área de petróleo e gás Durval Vieira de Freitas, da DVF Consultoria, de acordo com o qual, há uma perspectiva de aumento na produção de óleo e gás em território capixaba nos próximos anos.

“A Petrobras está lenta e gradualmente saindo do Espírito Santo. É ruim, por um lado, pois é uma grande empresa, e a gente sempre sofre um pouco com a saída de empresas de grande porte. Mas, pessoalmente, considero esse movimento positivo para o Espírito Santo, pois vai permitir a entrada de novas empresas no mercado, que vão aumentar a produção. Teremos maior agilidade. O que temos que fazer é continuar estimulando a vinda dessas empresas, como vem sendo feito.”

Fonte: A Gazeta