Brasília faz testes em massa contra o coronavírus (Covid-19), no dia do aniversário de 60 anos. Moradores fazem o teste no estacionamento do Estádio Mané Garrincha. Sérgio Lima/Poder360 21.04.2020

Duas pessoas foram presas nesta quinta feira (14), em São Mateus, no Norte do Estado, por se passarem por agentes de saúde para coletar amostras de sangue de moradores da cidade sem possuírem formação na área de saúde. De acordo com informações da Polícia Militar, os suspeitos faziam parte de um grupo de 17 pessoas que realizou mais de 250 testes na cidade.

Um atraso na comunicação entre o Ministério da Saúde e municípios fez com que um grande estudo nacional sobre o novo coronavírus virasse caso de polícia. Na última quinta-feira (14), uma pesquisa da Universidade Federal de Pelotas começou a testar pessoas de 133 cidades do país. Segundo a universidade, a pesquisa, feita em parceria com o Ministério da Saúde, pretende estimar quantos brasileiros já tiveram a Covid-19.

A instituição de ensino informou que o Ministério da Saúde se responsabilizou por fazer contato com os municípios, por meio de ofício, para que a população fosse informada da realização do estudo. Já as entrevistas são feitas por meio de visitas domiciliares, conduzidas por equipes do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope).

O documento comunica a realização da pesquisa, pedindo apoio das autoridades, só foi enviado na sexta-feira (15), mesmo o estudo tendo começado no dia anterior.

A Secretaria de Estado de Saúde (Sesa) confirmou que comunicação do Ministério da Saúde só chegou ao Estado um dia após o início do estudo. Em nota, a Sesa classificou o episódio como: “atraso da comunicação do Ministério da Saúde com os municípios”.

São Mateus

Secretário de Saúde de São Mateus, Henrique Luis Follador, disse: “Nós não recebemos nenhum tipo de comunicação oficial que essas equipes estariam aqui na quinta-feira. Então recebemos a denúncia de que pessoas estavam indo nas casas e fazendo coleta de material para fazer um teste de coronavírus. Um morador disse que não conhecia as pessoas como sendo do município. Então, eu solicitei que a PM fosse ao local e averiguasse a situação, e essas pessoas acabaram sendo encaminhadas para a delegacia”

O secretário afirmou ainda que só na tarde de sexta-feira (15) a prefeitura foi comunicada que a cidade de São Mateus tinha sido selecionada para participar do estudo.

“Nossa ação inicial foi preventiva, no sentido de tantos oportunistas que vivenciamos diariamente nesse cenário pandêmico, que investem, sistematicamente, nos serviços de saúde. A função nossa foi no sentido de proteger a nossa população, porque desconhecíamos a pesquisa”, finalizou Follador.

Polícia Civil

A Polícia Civil informou que 3 pessoas foram conduzidas à Delegacia Regional de São Mateus, onde declararam que estavam na cidade a serviço de uma empresa de pesquisas. Os três assinaram um Termo Circunstanciado, com base no artigo 41 da Lei das Contravenções Penais: provocar alarma, anunciando desastre ou perigo inexistente, ou praticar qualquer ato capaz de produzir pânico ou tumulto. Os detidos foram liberados para responder em liberdade, após assumir o compromisso de comparecer em juízo.

Polícia Militar

Também por meio de nota, a PM comentou o caso. “No final da tarde da última quinta-feira (14), policiais militares foram acionados, pois, segundo informações da Secretaria de Saúde do município de São Mateus, dois indivíduos estariam se identificando como funcionários da saúde, visitando residências e colhendo sangue para fazer o teste da Covid-19 no bairro Cohab.

No local, os militares encontraram dois indivíduos com vários materiais e lixo biológico. Eles relataram aos policiais que estavam fazendo uma pesquisa vinculada a uma empresa particular a cerca do coronavírus, em que eles estavam colhendo sangue, realizando teste da Covid-19 e informando o resultado. Foi mantido contato com o secretário de Saúde do município e o coordenador da Vigilância Sanitária, que informaram não ter conhecimento de nenhuma pesquisa ou teste em São Mateus.

As autoridades ainda disseram que para realizar os testes o encarregado deve ser formado na área de saúde com diploma ou formação médica. Posteriormente, compareceu ao local uma mulher se identificando como supervisora de campo informando que estava coordenando uma equipe de 17 pessoas em diversos bairros do município de São Mateus realizando testes da Covid-19 e nenhum deles tinha formação na área de Saúde, apenas um treinamento prático. Devido ao fato, os dois homens e a mulher foram levados para a Delegacia Regional do município”, conclui a nota.

Universidade Federal de Pelotas

Em nota, a Universidade Federal de Pelotas, afirmou que a situação não virou caso de polícia apenas no Espírito Santo. Segundo a UFPel, em quase 40 cidades, os pesquisadores estão de braços cruzados, esperando autorização dos gestores municipais.

“Nas situações mais graves, os entrevistadores do Ibope foram detidos, com uso de força policial, tendo sido tratados como criminosos. Trata-se de cerca de 2.000 brasileiros e brasileiras, que estão trabalhando para sustentar suas famílias, numa pesquisa que pode salvar milhares de vidas, e que mereciam proteção das forças de segurança e uma salva de aplausos por parte de toda a população. Ao contrário, as forças de segurança, que deveriam proteger os entrevistadores, foram responsáveis por cenas lamentáveis e ações truculentas, algumas delas felizmente registradas”, afirmou a instituição.

A coordenadora do estudo na UFPel, professora Mariangela Freitas da Silveira, lamentou que transtornos como esse tenham acontecido, mas reconheceu que a comunicação com os municípios apresentou falhas.

“A gente sabe que houve falhas enormes de comunicação, e estamos tentando solucionar isso. A prefeitura obviamente tem que saber que uma equipe está chegando ao município”, destacou a especialista, afirmando que a universidade pretende assumir um protagonismo nas ações de comunicação com os municípios que participam do estudo.

Estudo já fez o teste em 340 pessoas no ES

Apesar do atraso na comunicação entre o Ministério da Saúde e os municípios participantes do estudo, 340 moradores do Espírito Santo já foram testados, segundo informações da Universidade Federal de Pelotas. De acordo com os critérios do Ministério da Saúde, 250 testes devem ser realizados em cada uma das 133 cidades participantes da pesquisa.

Fonte: A Gazeta